
Esse fato que vou contar aconteceu a uns 4 anos atrás mais ou menos. Essa é a história do Mestre Dionisio Naja, um baiano nascido no sertão, que comeu calango quando era criança, muita farinha com água, vendeu calcinha na feira e descobriu que só através do estudo seria alguém na vida. Ele saiu da Bahia, foi estudar engenharia em Minas Gerais e depois de formado veio para o Rio de Janeiro fazer mestrado em engenharia cartográfica. Quando ele chegou ao Rio veio trabalhar em uma grande empresa do setor elétrico, onde eu e o colega Fredinho o conhecemos. Dionisio não conhecia o mundo do surf e ficava espantado quando nós conversávamos sobre as ondas, os videos, as pranchas. Na hora do almoço era só papo de surf e ele ficava boiando. O cara pensava que nós éramos loucos, só se falava do tal do surf. Um dia ele comentou.."ainda vou aprender a surfar!!!!!!". Foi o que precisávamos, começamos a elaborar a logística, Fredinho arrumou uma prancha e um strep, agendamos um sábado de sol e fomos levar o garoto pra conhecer o tal do surf. No dia combiando nos falamos por telefone e eu, como cheguei mais cedo na praia, fiquei de escolher o pico. O dia era de sol, 0,5 metro com séries maiores (vulgo meio metrão), rodei o meio da barra todo e escolhi uma valinha do lado de um banco de areia. Pensei.."aqui da pra galera surfar na valinha e mestre naja fica no banco de areia pegando espuma". Fredinho chegou trazendo o mestre e, enquanto eles iam retirando as pranchas do carro e arrumando as coisas, eu fui pra dentro d`água, uma vez que a fissura era grande. Entrei pela vala e logo já tava lá fora, peguei umas três ou quatro ondas, não tava muito bom não mas dava pra brincar. Foi quando comecei a procurar Fredinho e o mestre mais para a beira. Procurei na areia e não achei, procurei no banco de areia e também não estavam lá, e olha que as pranchas eram amarelas e não tinha como não ver. Foi quando escutei um apito, era o salva vidas apitando deseperado para onde eu tava. No momento eu pensei "Será que tem tubarão aqui????? Será que fiz alguma merda???? Será que atropelei alguém e nem percebi???". Em 25 anos de surf eu nunca tinha escutado um salva vidas apitando. Pra mim era novidade. Foi quando olhei pro lado e vi o mestre agarrado na prancha, batendo o pé pra sair dali com cara de assustado. O doido se meteu na valinha e foi sugado pra fora. Não devia passar nem cabelo pelo seu fioto naquele momento. As ondas entravam, ele tomava as espumas na cabeça e era arrastado cada vez mais pra fora. Dava pra ver o medo na cara dele, tipo quando você vê nos desenhos a morte te olhando com um capuz segurando uma foice. Ele deve ter pensado..."esses filhos da puta me trouxeram pra cá e agora eu vou morrer, tão novo e com um futuro tão brilhante pela frente." Fredinho quando percebeu a situação foi buscá-lo. Remou com força. Alcançou o baiano. Colocou ele na prancha, segurou pela rabeta e começou a nadar com força pra sair da vala. Foi quando a cara de espanto do mestre começou a mudar, ele soltou uma leve risadinha, percebendo que a situação já estava controlada. Eu confesso que fiquei sem reação, não sei ria ou se chorava. Quando cheguei perto deles Fredinho já havia tirado o mestre da vala e o puxava para o banco de areia. Ao chegar na areia ele ficou olhando para o chão, cheio de areia no cabelo, aliviado e assustado com o ocorrido. Ele que havia aprendido a nadar nos açudes do sertão baiano (se é que ele sabia nadar mesmo né) havia encarado um mar de 0,5 metrão no meio da Barra, não é pouca merda não, é a mesma coisa que eu que surfei a vida toda essas merrecas daqui encarar um teahuppo com 12 pés. Nunca mais o mestre quis saber de surf, ficou traumatizado. Algum tempo depois ele falou que ia tentar aprender de novo, que ia comprar uma prancha e tudo, mas isso nunca foi concretizado. A carreira de surfista dele acabou na primeira caída. Hoje em dia o mestre voltou pra Bahia e virou professor universitário, mas ele sabe que mora no coração da galera.
Minha mãe já dizia..."CUIDADO!!!! O MAR NÃO TEM CABELO!!!!!!"
Aloha GD